| ||
Figura lendária que habitou a Caetité do século vinte, vindo a deixar o corpo em 2006. Ninguém sabe quantos anos viveu. Uns garantem que mais de cem. Mas nada pode provar isso. Ninguém realmente sabe... ninguém realmente viu “cumpade” nascer. Mas muitos o viram morrer. Seu nome “cumpade” foi criado por ele mesmo, pois cumprimentava a todos assim: “Bom dia cumpade!” “Bom dia cumade!” E de “cumpade” a “cumpadim” levou toda a sua vida. Pés eternamente descalços, mesmo em pleno inverno ou nas chuvas. Uma velha e desbotada calça jeans com moedas nos bolsos traseiros. Camiseta de malha. Juntava moedas e não aceitava de dinheiro de papel. Andar característico e rápido. E mais rápida ainda era a sua fala. Suas narrativas eram enormes e incansáveis. E as fazia com precisão absoluta. Contava a mesma história centenas de vezes sem errar um único nome ou vírgula. E sem ninguém se cansar de ouvi-las. Ainda sinto nos ouvidos o eco das suas palavras quando, no ano 2000 o ouvi pela última vez. Contava histórias e mais histórias. De festas, de corridas, de pessoas... Mas nenhuma fez mais sucesso que a do enterro. Eram tantos os nomes que ninguém sabe repetir nem um terço! Citava os dos pretos e depois os dos brancos, separadamente... Quando começava e acelerava, parecia não mais querer parar... E ficávamos boquiabertos por alguns minutos curtindo sua narrativa e nos deliciando com aquela simplicidade tão matuta, tão simples, tão pura! E sentíamos orgulho de tê-lo só nosso! E ainda sentimos esse orgulho por havê-lo conhecido! Ao avistar uma senhora ou um senhor, respeitoso e gentil, dizia: “Bença madinha, bença padim!” Era característica daquele homem a quem Caetano Veloso descreveria como “um preto quase branco” ou “um branco quase preto”. Estatura média. Cabelos encaracolados e curtos. Gentil. Amigo. Tranquilo. Gostava de todos, inclusive das crianças com as quais tinha cuidado especial. Andarilho nato. Percorria ruas e a estrada de Brejinho, sua terra natal. Quilômetros e quilômetros, ia e voltava, e não aceitava carona. Não ofendia ninguém, mesmo que insistissem em perguntar-lhe sobre casamento. Totalmente avesso ao matrimônio, se alguém o indagasse sobre, saia rapidinho dizendo: “Não sei de nada disso...” Pedia bem pouco à vida. E a risada? Toda sua, toda característica, era uma espécie de “Ia ia ia ia ia ia ia...” E quando começava... ia ia ia longe!!! Com certeza não foi nenhum dos poetas dessas plagas sertanejas, mas, com certeza, foi o maior “contador de causos”, pois o que narrou ficou registrado para sempre em nossa memória. Não precisou escrever livros e nem jornais para imortalizá-los. Bastou repeti-los a centenas de ouvidos. E ninguém queria ouvir apenas uma vez. Todos quiseram guardar suas histórias para sempre. Quem, da minha geração e de outras que vieram depois não se lembra das suas intermináveis narrativas? Quem nunca parou para ouvir o célebre enterro? Sim, Cumpadi Chico é digno de uma cadeira honorária em nossa ACL, na Câmara Municipal, em nossas eternas lembranças, em nossos corações. Amado “Cumpadi” ou “Cumpadim”! Hoje eu sei por que você nunca quis ouvir falar em se casar. Agora eu consigo entender seu coração. Ele não poderia jamais pertencer a uma só pessoa, pois você era nosso! Nosso herói descalço e simples que, vagando rápido pelas ruas de Caetité, com seu gingado característico, falava com cada um que encontrava pelo caminho e distribuía seu sorriso e sua sabedoria. Um homem bom. Sozinho. Mas nunca solitário, pois era amigo de todos os caetiteenses! Era querido e sua memória será sempre laureada. Que Deus o acolha, “Cumpadi Chico”! Que os anjos se divirtam com tuas histórias! Que o céu tenha muitas estradas para teus pés desnudos e calejados pelos anos de vida na Terra! Vida que nos presenteou com tanto carinho e ternura! Com sabedoria e amizade. E que os ouvidos celestes te escutem e te aplaudam! Caetité não te esquece. Quem te viu, te guardou no coração e te eternizará através de contos, poemas, crônicas e histórias. Que Deus te abençoe Cumpadi Chico! Luzmar Oliveira – luz.luz2010@hotmail.com – WhatsApp: 71 – 99503115 e 87247161. http:// facebook.com/luzmar.oliveira1 |